sábado, 24 de agosto de 2019

O Diabinho da Garrafa (conto)

        
   Na década de 70, eu estava viajando pelo estado da Paraíba a trabalho, quando nosso caminhão teve problemas e tivemos de nos estacionar por uns dias em um lugarejo no interior chamado, na época, de Córrego de Areia. Não me alongarei quanto aos detalhes relativos aos motivos da viagem ou porquê o transporte quebrou, apesar de provavelmente ser da curiosidade do senhor leitor, o intuito é contar um relato sobrenatural, real, que aconteceu comigo e até hoje, tira meu sono. O que irei dizer aqui, posso garantir que é mais real que o fato de eu estar vivo. Sou ou pelo menos era, uma pessoa exacerbadamente cética, que deve ver para crer; quando digo que vi o que vi e ouvi o que ouvi, acredite.
Eu estava na casa dos 20 e poucos anos e, com aquela sede de viver que só os jovens têm, não estava satisfeito de ficar enfurnado na pensão de merda que alugamos, de forma que decidi explorar a pacata Córrego de Areia. O clima era quente e seco, o que não era incomum para a localização; pela tarde, decidi andar um pouco por lá, estava mais quente e seca do que as outras tardes que vivi em minha curta estadia. Durante minhas andanças, encontrei uma feira livre, relativamente grande para o pequeno núcleo populacional da cidade. Conversei um pouco com os moradores e feirantes, descobri que aquela feira, na verdade, era um ponto de encontro de vendedores itinerantes de diversas partes do estado, justamente pelo fato da pequena cidade estar no epicentro dos caminhos que levavam a maior parte dos locais importantes da região. Lá havia de tudo: de galinhas a filhotes de cães e gatos, de frutas à comidas indescritíveis, de bebidas alcoólicas a materiais esotéricos…
E foi em uma barraca de materiais esotéricos que me demorei um pouco mais, interessado, em particular, numa garrafa de cachaça, vazia, arrolhada, que parecia ter algum pequeno ser vivo dentro. Não era muito visível, parecia uma espécie de calango ou lagarto, talvez um rato; não conseguia ver bem pois se encontrava encolhido em um de seus cantos transparentes. No meio daquela gama de crânios de diversos animais, poções, dentes de alho e estátua de ídolos desconhecidos, a estranha vendedora se inclinou no balcão, perguntou se eu estava interessado no Familiá. Primeiramente, assustei-me com sua aparência, era uma mulher exageradamente feia: desdentada, pele muito castigada pelo sol e um dos olhos totalmente branco, provavelmente cega deste. Embasbacado e ao mesmo tempo curioso perguntei o que seria o Familiá, então sua reação deixou-me surpreso: apenas sorriu e segurou a garrafa com ambas as mãos, virando-a para mim, para o meu terror, revelando a forma da criatura, da qual eu nunca mais esqueci.
De dentro da garrafa, encolhido em um canto, levantou a cabeça para me olhar uma pequenina figura vagamente antropomórfica de cerca de quinze centímetros, pele preta, com raros e finos pelos espalhados pelo corpo, cauda de lagarto, pequenos chifres na cabeça. Quando ainda mais horrorizado, percebi que a fuça do animal era praticamente idêntica a de um homem, fiquei paralisado. Parecendo perceber meu medo, o pequeno ser pulou na parede da garrafa, como se estivesse avançando em minha direção. A criatura que eu não sabia o nome - ou ousava nomear, fixou suas mãos, de supetão, no vidro e me fazendo cambalear para trás, caindo em cima de alguns balaios de palha. Juro que, por uma fração de segundos, pude ter a impressão que o monstrinho ria de mim.
A velha gargalhou, acariciou a garrafa, proferiu, com aquela voz rouca e assustadora, palavras que eu nunca mais esqueci:
-Suncê num é daqui né, fío, isso aqui é um Familiá, um diabinho da garrafa. Por enquanto ainda tá piqueno, mas em pouco tempo vai ficá adulto e trazer todas as riqueza que o dono quisé. Dá muito trabaio fazer, sim sinhô, mas se suncê quiser ti vendo ele. Num vai barato, claro, mas não tem mais muita coisa que essa véia quêra da vida de módii que podi fica com ele se quisé e pudé pagá.
Levantei espantado, corri de volta para a pousada e fiquei rezando, sem conseguir dormir, durante toda à noite, até o dia seguinte. Pela manhã, finalmente consertaram o caminhão e pudemos seguir viagem.  Quando contei aos outros homens quase morreram de rir, dizendo que provavelmente o bicho seria um filhote de macaco ou mesmo fruto da minha imaginação, mas não me dei por satisfeito! Eu sabia o que tinha visto, o rosto do pequeno era demasiadamente humano para ser confundido com o de um macaco. Não nego que alguns pensamentos orbitaram minha mente: quanto será que custa; seria apenas uma velha, desesperada, desocupada e charlatona?
O assunto me assombrou por muitos, muitos anos, mas não posso dizer que me fez apenas mal: graças à visão tenebrosa que tive do diabinho na garrafa, consequentemente tornei-me uma pessoa mais crente em Deus e no Diabo. Fiz mais caridade, frequentei mais a igreja, me tornei um cristão devoto.
Há pouco tempo, me aposentei e fiquei decidido a tirar a limpo essa história que nunca me saiu da cabeça decidi voltar à cidadezinha para tentar descobrir do que se tratava o tal monstro, sanar a dúvida que me assola há tantos anos: afinal, o que foi que eu vi aquele dia? Dei uma desculpa à esposa e as filhas, disse que precisava tirar umas férias sozinho, peguei um avião para João Pessoa e de lá um ônibus rumo à essa vila, que atualmente nem se chamava mais Córrego de Areia.
Chegando, notei de imediato que a cidade havia crescido bastante, estava mais urbanizada, com mais casas, carros, motos, mas ainda assim uma cidade do interior. A feira continuava lá, no mesmo lugar e mesmo andando por ela, durante horas não consegui encontrar diabinhos em garrafas e nem a velha da ocasião; o que eu já esperava, afinal de contas, em 1973 ela já era bem velha, com certeza já havia de ter morrido.
Um pouco frustrado, mas ainda disposto a tirar a história a limpo, parei em uma outra barraca esotérica - que não tinha Familiás, no caso; perguntei ao vendedor sobre a velha e a lenda do diabo engarrafado. O homem de meia idade disse que nunca havia visto tal velha com as características descritas, que aquela era uma feira itinerante e os barraqueiros iam e vinham, ficavam e desficavam da mesma forma  que o sol se põe e nasce todos os dias, frustrando o resto de minhas esperanças; quanto ao diabinho da garrafa: disse que já havia ouvido falar de algumas histórias, que era comum os fazendeiros ricos da região terem um para chamar de seu, que traziam fortuna e tudo mais, porém sugeriu que eu procurasse um feiticeiro da cidade, ele provavelmente poderia dar  informações mais profundas sobre o tema. Agradeci, anotei o endereço que o sujeito indicou e fui guiado por ele, acabando por chegar em uma pequena chácara, uma espécie de tapera à beira da estrada com galinhas soltas no terreiro da frente e onde uma placa de papelão escrita à mão dizia:

" PAI BENTO
LÊ PASSADO PRESENTE E FUTURO;
BÚZIOS, TARÔ E CARTAS
TRATA DE ASSUNTOS ESPIRITUAIS
AMARRAÇÕES
FAZ E DESFAZ MALDIÇÃO
TRABALHO PRO BEM E PRO MAL "
 
Bati palmas e um senhorzinho desses da roça, bem velhinho e magrelo, até simpático eu diria, apareceu na porta. Em uma mão se apoiava em uma bengala, com a outra me fez um gesto convidando a entrar.
O interior da choupana era bem simples, paredes de barro continham quadros antigos com fotos enegrecidas de possíveis parentes do Pai Bento, junto a imagens de santos católicos. Me sentei em um sofá carcomido e o velho voltou com uma bandeja de madeira, sob a qual se encontravam duas canecas de metal e um bule fumegante, do qual saia um agradável cheiro de café recém passado. Me servi agradecido e comecei a contar minha história, de que já havia estado ali há décadas atrás, o que vi, a história que não saía de minha cabeça, por fim, falei da minha enorme curiosidade e que ansiava muito sobre o que ele diria sobre o causo.
A partir de agora, irei narrar palavras de Pai Bento - da maneira da qual lembro. Recordo com exatidão o sentido da mensagem, mas talvez minha mente cansada não lembre fielmente das palavras, ademais, é assim que foi, para mim; não se preocupe, o sentido está intacto. Enfim, começou a dizer o velho:
-Hum, hum…  Então, tu quer um diabin da garrafa, é seu cabra? Não é fácil fazer um e muito menos barato. Não digo barato no din din; pila não vai te custar algum, mas em troca- deu uma gargalhada maliciosa, em troca tua alma vai direto para o colo do capeta quando bater as botas. Tudo tem seu preço, homi, o diabinho nesta vida, te dará tudo o que quiser: dinheiro, mulheres, uns lote, fama, quase tudo de material e imaterial que um homi quer em vida terrena. Cedo ou tarde, ele vai lhe cobrar! Essa cobrança, não quer dizer que ele irá querer a sua alma; talvez ele lhe leve a vida dum fío, duma esposa, talvez mande que ocê faça algo por ele, depende bastante do humor do cramulhão quando ocê fez o pacto. Sim, um pacto! Criar um diabin da garrafa não é nada mais nada menos que fazer um pacto com o próprio Satanás. Não se engane pensando que sairá bem dessa história, independente se for uma tarefa simples ou não, não vão lhe deixar entrar no céu depois que suncê faz um pacto satânico - e mais uma vez, gargalhou maliciosamente, olhando no fundo dos meus olhos, como se olhasse e lesse minha mente, captasse minhas intenções e decifrasse todos os meus temores.
-O diacho do bicho engarrafado tem muitos nomes: Familiá, diabin da garrafa, Cramulhão, pé preto, mão peluda, familiar; muitos nomes para falar duma coisa só: um diabin pessoal, que você alimenta com energia mística, positiva ou negativa, vai fazer tudo que seu mestre quiser. Até pouco tempo, era normal achar gente vendendo esses diabinhos engarrafados em feiras aqui do Nordeste, mas hoje em dia está mais difícil se deparar com esse tipo de coisa; como disse, esses bichin se alimentam de energia mágica e a vinda das pessoa pra cidade e essas coisa moderna, têm ficado cada vez mais difícil fazer e manter vivo um demonin desses. Modernidade atrapalha as energias mágicas de se manifestarem, hoje em dia é bem mais difícil se deparar com situações como a que se deparou quando era mais moço.  No final das contas, o que mantém essa criaturinha viva é a crença, tudo que nós crê, nós alimenta. Mas não é impossível de ainda se encontrar! De vez em quando ainda topo com um ou outro querendo vender um Familiá engarrafado, para o desespero dos padres da região. Eu dou é risada. As pessoas têm o direito de fazer o que quiserem com a vida delas; o tal do livre arbítrio também é deixar os outros escolherem o seu destino de suas vidas póstumas, mas admito que sempre que lembro dos nomes desses cabeça de vento, faço uma oração.
Fiquei deveras assustado, finalmente o assunto que me perseguiu por boa parte da vida estava ficando claro para mim. De todas as teorias que pensei nesses anos, nenhuma se compara com o que acabei de ouvir, tenho absoluta certeza que ainda pensarei muito nisso mas, com uma bagagem de informação - que talvez me assuste mais que a desinformação..
O senhor continuou.
-Vô ti conta, não é fácil fazer um Familiá e qualquer errin bobo bota tudo a perder. Porém num é impossível... O que mais posso lhe dizer... é um feitiço bem antigo, talvez mais antigo que a própria Igreja! São Cipriano já o descrevia um eito de tempo atrás em seu Livro da Capa Preta, há relatos disso pelos quatro cantos do mundo e falando nisso, cabra, tu nem devia ter vindo até o interior de João Pessoa procurá essa informação, vejo que tu é bem de vida, lá nas tuas bandas devia ter alguma bruxa véia, meio trambiquêra que soubesse de algo; mas já que suncê tá aqui, não o farei perder a viagem. Tu deve estar querendo saber como faz o diabinho engarrafado, então vamo lá que eu vou lhe explicar.
Na verdade, eu nem pensava nisso, achava que provavelmente era um ser que habitava o mundo concomitante conosco. Seguia a lógica de que se "conhecemos" os oceanos, e ainda não conhecemos nem 10%, quem garante que a existência de sereias é irreal?
-Tudo começa com a escolha do lugar que será feito o feitiço: é comum das pessoas fazerem no terreiro de casa, no próprio galinheiro ou pasto; uns dizem que o certo é fazer em uma encruzilhada, terreiro de candomblé ou terrenos da Igreja, Eu como feiticeiro véi que sou, sei que isso não é tão necessário; ajudaria a fazer dar certo, é um bicho que se alimenta de energia mágica, encruzilhadas, terreiros e áreas da Igreja são lugares muito carregados de energia, seja ela positiva ou negativa. Porém, como encruzilhadas são lugares que têm muita circulação de pessoas - logo, curiosos e nem todo mundo tem à disposição uma Igreja ou terreiro, o mais comum é fazer no galinheiro de casa mesmo. O mais importante é ser um lugar que não tenha ninguém para fuçar e estragar tudo! É um processo muito delicado, demora para ficar pronto e exige um lugar tranquilo e sem muita gente.
A curiosidade ficou mais forte "e se, e se, e se" era só o que pensava; embora não tivesse coragem de fazer esse ritual, imaginava "e se" fizesse. Com certeza não seria em minha casa! Primeiro porque minha família não entenderia e segundo porque está longe de ser sossegada.
-Escolhido o lugar, chega a hora de escolher o período, os dias em que suncê fará o ritual. É bom que seja feito no início da quaresma, é uma época muito sagrada para os religiosos, de resguardo e oração, a energia do mal é alta e o Diabo adora que profanações como essas sejam feitas durante períodos santos como este; como Jesus passou quarenta dias no deserto, os bons espíritos se retiram para se prepararem para o grande marco da passagem de Cristo para a vida eterna. É comum também que membros da Igreja e do terreiro parem de comer carne, beber, ir à festas, praticar atos libidinosos para evitar serem afetados pelo coiso ruim. Não é proibido que seja feito em outros períodos, também pode funcionar, mas guarde isso: é menos provável que dê certo.
Lembrei de algumas pessoas que conheci na vida, comecei a ligar alguns pontos, como nunca pensei nisso antes? O carnaval; o jejum dos muçulmanos…
-Tendo esses preparativos feitos, separe uma galinha e galo pretos e bote eles separados das outras galinhas dentro do galinheiro fechado. Traga também um bode preto, vivo, e uma vela preta de 7 dias lá para dentro que está na hora de fazer o pacto. Acenda a vela em um local alto, com parador de vento, esse é o momento em que, de fato, venderá sua alma para O coisa ruim. Com uma faca virgem faça um corte em seu dedo indicador e em voz alta, em claro e bom tom, sem espaço para entrelinhas ou incertezas diga que está ali para oferecer sua alma a Lúcifer, em troca de todo o dinheiro e bens materiais que puder ter nessa vida e que caso um dia isso lhe falte o pacto será desfeito. Dito isso, corte a garganta do bode e espalhe seu sangue pelo galinheiro.   Com uma mistura do sangue do bode e o seu que sai do seu dedo desenhe uma cruz invertida na parede do galinheiro bem embaixo da vela preta. Esse é o momento em que, se o capeta lhe atendeu, você deverá sentir um troço estranho... É bem peculiar de cada um, uns sentem um pedaço da alma deixar o corpo, outros sentem um vazio que só vivendo pra explicar. O importante é saber que suncê deverá o local e não voltar a entrar ali enquanto não se completarem 7 dias! Lhe sugiro que vá direto para a cama pois vai arder em febre por uns tempos - o velho deu uma risada maligna, fiquei paralisado.

-No final dos 7 dias, quando a vela se apagar, volte ao galinheiro. É o momento de procurar o ovo do cramulhão, um ovo de galinha que estará fecundado pelo próprio dêmo! Cuide ao entrar, veja bem onde pisa, pois o ovo é pequeno, bem menor que um ovo normal de galinha, mas com a mesma aparência. Há quem diga que esse é um ovo botado por um galo e eu digo: besteira, cabra! Isso não existe, é impossível um galo botar ovo e esta é uma informação muito da mentirosa que vem dos anos de lenda passada no boca a boca. Ao achar, notará que apesar de menor é muito mais pesado que um ovo caipira normal, sua consistência interna aparenta ser mais viscosa: a gema e a clara não se mexerão com tanta malemolência quanto os de um ovo caipira normal.
A partir daqui, fiquei com medo do meu "e se, e se, e se" se tornar realidade. Seria incabível eu ter dedicado anos de fé e altruísmo fugindo desse bicho fisicamente, mentalmente e espiritualmente para depois de eu velho, barbudo, aposentado ficar tentado a corromper minha alma.
-Pegue o ovo com cuidado, leve de preferência, a uma encruzilhada, donde tenha um monte fresco e quente de estrume; pode ser estrume de boi ou cavalo, mas prefira os dos cavalos, são animais mais mágicos que os bois. Aí me pergunta: por que o estrume? Simples meu cabra, estrume é um dos elementos com maior quantidade de energia mágica vital, ele é o resultado de toda a comida que o bicho come, passa por todo o seu corpo e é resultado de um processo que o mantém vivo. Tem muita energia acumulada e pela décima vez: esses diabin se alimentam de energia. Há versões do ritual que dizem que se deve botar o ovo debaixo do subaco esquerdo, faz sentido, diz os dotô que na asa esquerda passam uns vasos que vem direto do coração, poucas coisas têm tanta energia mágica quanto'um coração humano batendo. Porém não é conveniente, imagina como é ruim ter um ovo debaixo do braço por 40 dias;  ele se quebraria mais cedo ou mais tarde e levaria todo o processo por água abaixo! Outras versões dizem que se deve matar um gato preto, enterrar seus dois olhos ali nas fezes, junto do ovo; outra coisa que também faz sentido, gatos são os bichins espirituais e matar um para colocar seus olhos como “comida” de dêmo, suncê deve imaginar o tanto de energia que está acumulada ali.
Acho que nunca tinha ouvido tantas teorias sobre fezes na vida, não que eu lembre muito das aulas de biologia que frequentei durante o colegial. Sentia um fogo dentro de mim, como se estivesse adormecido há muito tempo e tivesse despertado agora.
-Enfim, bote o ovo no estrume quente e o deixe ali incubando por 30 à 40 dias. É interessante que ocê busque uma encruzilhada que num passe ninguém! Se algum curioso remexer a bosta em algum momento pode quebrar o ovo e aí bau bau, tem que começar tudo de novo. No final de 30 dias volte diariamente e com todo o cuidado mexa no estrume para ver se o diabin já nasceu. Quando ele nascer tu irá notar o ovo quebrado e no meio do estrume, o encontrará.
Daí eu lhe pergunto: qual será o nível de desespero pra fazer um indivíduo fazer revirar dejetos a fim de ganhar "poder" em vida?
-No começo ele parecerá mais com um lagartin de parede do que com um diabin. Será uma espécie de lagartixa preta, pegajosa, pequeninha, que se enrolará inteira em seu dedo quando tocada. Pegue, leve para casa e coloque-o dentro de uma garrafa vazia com arrolha e tudo. A partir daí, dê comida todos os sábados, furando teu dedo com um alfinete virgem e pingando duas gotas dentro da garrafa. Deixe de preferência em um lugar energizado da casa, que ninguém mexa; um altar véi que nem eu, de orações pessoal ou capela são melhores. Alguns pedem pra benzerem a garrafa, evitando qualquer tripulia  do dêmo, mas isso é bobagem, não muda nada.

-Com o tempo, tu irá notar que seu diabin irá cada vez mais parecer com um humano pequenuxo, cada vez menos parecido com um lagarto. Aos poucos ele passará a se mover com duas patas, o rabo ficará maió com uma ponta em forma de flecha, mãos e pés vão parecer de gente e chifres brotarão da cabeça. O coiso que suncê viu quando era moço provavelmente estava nesse estágio.
O feiticeiro já havia mudado seu olhar e seu tratar; antes mantinha uma certa distância, agora já chegava perto de mim e dizia num tom de voz que era quase um sussurro, como se estivesse falando algo proibido..
-Um dia pegará a garrafa e para sua surpresa, só vai ter pequenos pedaços de carne preta se desmanchando, mas não fique afolosado! É sinal que seu dêmo virou adulto e poderá atender todos os pedidos. Acontece que adulto ele toma o poder de ficar invisível, mas ele ainda está ali dentro, pode acreditar. Você ainda poderá o ver, é verdade. Às vezes, olhando de canto de olho, vai ver uma forma diabólica em miniatura dentro da garrafa, mas se olhar de novo, não verá mais nada e ficará em dúvida se realmente viu alguma coisa ou não; às vezes notará uma poeira girando dentro da garrafa, que logo se acalma; às vezes conseguirá ver sua sombra se botar a garrafa perto de uma fonte de luz,  sem nenhum corpo lá dentro que faça sombra. É importante dizer que a partir desse ponto não se deve nunca mais voltar a abrir a garrafa! Não é mais necessário alimentar e caso ignore e abra a garrafa com o coiso adulto, pode crê que sua vida se transformará num inferno na terra.
No fundo eu sabia que não era só maravilhas, mas essas últimas informações me deixaram desanimado, eu juro que imaginava que seria uma criatura digamos que mais "presente". E estou contando isso porque provavelmente, você imaginou a mesma coisa que eu.
-Se tu seguiu os passos direitinho e conseguiu chegar a esse ponto está pronto para pedir o que quiser. O diabin te atenderá em tudo. Também é possível fazer qualquer pergunta sobre o passado, presente ou futuro e ele lhe responderá em sonho. Terá uma vida de rei, regada por todos os luxos que puder imaginar. Lembre-se: sua alma estará condenada a sofrer por toda a eternidade nas mãos do satanás, e aí lhe pergunto, vale a pena?
Agradeci Pai Bento, o paguei o que devia pela consulta e segui meu rumo. Por sorte, nunca tentei fazer o ritual e nem recomendo que façam; felizmente, minha razão e temor em Deus foram mais fortes que a minha curiosidade, naturalmente humana, no desconhecido. Pude ao menos ter uma noção do que encontrei aquele dia em minha juventude. Hoje sou um homem mais temente a Deus, não desejo nada de ninguém e sigo minha vida normalmente. Ainda há algo que ainda frequentemente me tira o sono: se esse diabinho da garrafa existe, penso nas outras possibilidades de existências. Passei a refletir e temer mais o desconhecido. Esse indecifrável mundo deve abrigar criaturas que não ousamos imaginar, todavia, garanto que todo mundo tem uma história semelhante a minha, mas assim como eu, guardam à sete chaves, porque a grande maioria dos habitantes, humanos, desse planeta, não acreditam no sobrenatural por não ser algo "racional". De fato racional não é, contudo é inegável e inquestionável que o sobrenatural existe e convivemos com ele, quer você acredite ou não.


Obs: Este conto foi editado, corrigido e melhorado pela sensacional Júlia Lunardi, valeu demais garota!

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