Na década de 70, eu estava viajando pelo estado da Paraíba a trabalho, quando nosso caminhão teve problemas e tivemos de nos estacionar por uns dias em um lugarejo no interior chamado, na época, de Córrego de Areia. Não me alongarei quanto aos detalhes relativos aos motivos da viagem ou porquê o transporte quebrou, apesar de provavelmente ser da curiosidade do senhor leitor, o intuito é contar um relato sobrenatural, real, que aconteceu comigo e até hoje, tira meu sono. O que irei dizer aqui, posso garantir que é mais real que o fato de eu estar vivo. Sou ou pelo menos era, uma pessoa exacerbadamente cética, que deve ver para crer; quando digo que vi o que vi e ouvi o que ouvi, acredite.
Eu estava na
casa dos 20 e poucos anos e, com aquela sede de viver que só os jovens têm, não
estava satisfeito de ficar enfurnado na pensão de merda que alugamos, de forma
que decidi explorar a pacata Córrego de Areia. O clima era quente e seco, o que
não era incomum para a localização; pela tarde, decidi andar um pouco por lá,
estava mais quente e seca do que as outras tardes que vivi em minha curta
estadia. Durante minhas andanças, encontrei uma feira livre, relativamente
grande para o pequeno núcleo populacional da cidade. Conversei um pouco com os
moradores e feirantes, descobri que aquela feira, na verdade, era um ponto de
encontro de vendedores itinerantes de diversas partes do estado, justamente
pelo fato da pequena cidade estar no epicentro dos caminhos que levavam a maior
parte dos locais importantes da região. Lá havia de tudo: de galinhas a
filhotes de cães e gatos, de frutas à comidas indescritíveis, de bebidas
alcoólicas a materiais esotéricos…
E foi em uma barraca
de materiais esotéricos que me demorei um pouco mais, interessado, em particular,
numa garrafa de cachaça, vazia, arrolhada, que parecia ter algum pequeno ser
vivo dentro. Não era muito visível, parecia uma espécie de calango ou lagarto,
talvez um rato; não conseguia ver bem pois se encontrava encolhido em um de
seus cantos transparentes. No meio daquela gama de crânios de diversos animais,
poções, dentes de alho e estátua de ídolos desconhecidos, a estranha vendedora
se inclinou no balcão, perguntou se eu estava interessado no Familiá.
Primeiramente, assustei-me com sua aparência, era uma mulher exageradamente
feia: desdentada, pele muito castigada pelo sol e um dos olhos totalmente branco,
provavelmente cega deste. Embasbacado e ao mesmo tempo curioso perguntei o que
seria o Familiá, então sua reação deixou-me surpreso: apenas sorriu e segurou a
garrafa com ambas as mãos, virando-a para mim, para o meu terror, revelando a
forma da criatura, da qual eu nunca mais esqueci.
De dentro da
garrafa, encolhido em um canto, levantou a cabeça para me olhar uma pequenina
figura vagamente antropomórfica de cerca de quinze centímetros, pele preta, com
raros e finos pelos espalhados pelo corpo, cauda de lagarto, pequenos chifres
na cabeça. Quando ainda mais horrorizado, percebi que a fuça do animal era
praticamente idêntica a de um homem, fiquei paralisado. Parecendo perceber meu
medo, o pequeno ser pulou na parede da garrafa, como se estivesse avançando em
minha direção. A criatura que eu não sabia o nome - ou ousava nomear, fixou
suas mãos, de supetão, no vidro e me fazendo cambalear para trás, caindo em
cima de alguns balaios de palha. Juro que, por uma fração de segundos, pude ter
a impressão que o monstrinho ria de mim.
A velha
gargalhou, acariciou a garrafa, proferiu, com aquela voz rouca e assustadora,
palavras que eu nunca mais esqueci:
-Suncê num é daqui né, fío, isso
aqui é um Familiá, um diabinho da garrafa. Por enquanto ainda tá piqueno, mas em pouco tempo vai ficá adulto e trazer todas as riqueza
que o dono quisé. Dá muito trabaio
fazer, sim sinhô, mas se suncê quiser ti vendo ele. Num vai sê barato, claro, mas não tem mais muita
coisa que essa véia quêra da vida de módii que cê podi fica com ele se quisé e pudé pagá.
Levantei
espantado, corri de volta para a pousada e fiquei rezando, sem conseguir
dormir, durante toda à noite, até o dia seguinte. Pela manhã, finalmente
consertaram o caminhão e pudemos seguir viagem.
Quando contei aos outros homens quase morreram de rir, dizendo que
provavelmente o bicho seria um filhote de macaco ou mesmo fruto da minha
imaginação, mas não me dei por satisfeito! Eu sabia o que tinha visto, o rosto
do pequeno era demasiadamente humano para ser confundido com o de um macaco.
Não nego que alguns pensamentos orbitaram minha mente: quanto será que custa;
seria apenas uma velha, desesperada, desocupada e charlatona?
O assunto me
assombrou por muitos, muitos anos, mas não posso dizer que me fez apenas mal:
graças à visão tenebrosa que tive do diabinho na garrafa, consequentemente
tornei-me uma pessoa mais crente em Deus e no Diabo. Fiz mais caridade,
frequentei mais a igreja, me tornei um cristão devoto.
Há pouco
tempo, me aposentei e fiquei decidido a tirar a limpo essa história que nunca
me saiu da cabeça decidi voltar à cidadezinha para tentar descobrir do que se
tratava o tal monstro, sanar a dúvida que me assola há tantos anos: afinal, o
que foi que eu vi aquele dia? Dei uma desculpa à esposa e as filhas, disse que
precisava tirar umas férias sozinho, peguei um avião para João Pessoa e de lá
um ônibus rumo à essa vila, que atualmente nem se chamava mais Córrego de
Areia.
Chegando,
notei de imediato que a cidade havia crescido bastante, estava mais urbanizada,
com mais casas, carros, motos, mas ainda assim uma cidade do interior. A feira
continuava lá, no mesmo lugar e mesmo andando por ela, durante horas não
consegui encontrar diabinhos em garrafas e nem a velha da ocasião; o que eu já
esperava, afinal de contas, em 1973 ela já era bem velha, com certeza já havia
de ter morrido.
Um pouco
frustrado, mas ainda disposto a tirar a história a limpo, parei em uma outra
barraca esotérica - que não tinha Familiás, no caso; perguntei ao vendedor
sobre a velha e a lenda do diabo engarrafado. O homem de meia idade disse que
nunca havia visto tal velha com as características descritas, que aquela era
uma feira itinerante e os barraqueiros iam e vinham, ficavam e desficavam da
mesma forma que o sol se põe e nasce
todos os dias, frustrando o resto de minhas esperanças; quanto ao diabinho da
garrafa: disse que já havia ouvido falar de algumas histórias, que era comum os
fazendeiros ricos da região terem um para chamar de seu, que traziam fortuna e
tudo mais, porém sugeriu que eu procurasse um feiticeiro da cidade, ele
provavelmente poderia dar informações
mais profundas sobre o tema. Agradeci, anotei o endereço que o sujeito indicou
e fui guiado por ele, acabando por chegar em uma pequena chácara, uma espécie
de tapera à beira da estrada com galinhas soltas no terreiro da frente e onde
uma placa de papelão escrita à mão dizia:
" PAI BENTO
LÊ PASSADO PRESENTE E
FUTURO;
BÚZIOS, TARÔ E CARTAS
TRATA DE ASSUNTOS
ESPIRITUAIS
AMARRAÇÕES
FAZ E DESFAZ MALDIÇÃO
TRABALHO PRO BEM E
PRO MAL "
Bati palmas e
um senhorzinho desses da roça, bem velhinho e magrelo, até simpático eu diria,
apareceu na porta. Em uma mão se apoiava em uma bengala, com a outra me fez um
gesto convidando a entrar.
O interior da
choupana era bem simples, paredes de barro continham quadros antigos com fotos
enegrecidas de possíveis parentes do Pai Bento, junto a imagens de santos
católicos. Me sentei em um sofá carcomido e o velho voltou com uma bandeja de
madeira, sob a qual se encontravam duas canecas de metal e um bule fumegante,
do qual saia um agradável cheiro de café recém passado. Me servi agradecido e
comecei a contar minha história, de que já havia estado ali há décadas atrás, o
que vi, a história que não saía de minha cabeça, por fim, falei da minha enorme
curiosidade e que ansiava muito sobre o que ele diria sobre o causo.
A partir de
agora, irei narrar palavras de Pai Bento - da maneira da qual lembro. Recordo
com exatidão o sentido da mensagem, mas talvez minha mente cansada não lembre
fielmente das palavras, ademais, é assim que foi, para mim; não se preocupe, o
sentido está intacto. Enfim, começou a dizer o velho:
-Hum,
hum… Então, tu quer um diabin da
garrafa, é seu cabra? Não é fácil
fazer um e muito menos barato. Não digo barato no din din; pila não vai te
custar algum, mas em troca- deu uma gargalhada maliciosa, em troca tua alma vai
direto para o colo do capeta quando bater as botas. Tudo tem seu preço, homi, o diabinho nesta vida, te dará
tudo o que quiser: dinheiro, mulheres, uns lote,
fama, quase tudo de material e imaterial que um homi quer em vida terrena. Cedo ou tarde, ele vai lhe cobrar! Essa cobrança, não quer dizer que ele irá querer a sua alma; talvez ele
lhe leve a vida dum fío, duma esposa, talvez mande que ocê faça algo por ele, depende bastante
do humor do cramulhão quando ocê fez o pacto. Sim, um pacto! Criar um diabin da garrafa não é nada mais nada
menos que fazer um pacto com o próprio Satanás. Não se engane pensando que
sairá bem dessa história, independente se for uma tarefa simples ou não, não
vão lhe deixar entrar no céu depois que suncê faz um pacto satânico - e mais
uma vez, gargalhou maliciosamente, olhando no fundo dos meus olhos, como se
olhasse e lesse minha mente, captasse minhas intenções e decifrasse todos os
meus temores.
-O diacho do
bicho engarrafado tem muitos nomes: Familiá, diabin da garrafa, Cramulhão, pé preto, mão peluda, familiar;
muitos nomes para falar duma coisa
só: um diabin pessoal, que você
alimenta com energia mística, positiva ou negativa, vai fazer tudo que seu
mestre quiser. Até pouco tempo, era normal achar gente vendendo esses diabinhos
engarrafados em feiras aqui do Nordeste, mas hoje em dia está mais difícil se
deparar com esse tipo de coisa; como disse, esses bichin se alimentam de energia mágica e a vinda das pessoa pra cidade e essas coisa moderna, têm ficado cada vez mais difícil fazer e manter vivo um demonin desses. Modernidade atrapalha as
energias mágicas de se manifestarem, hoje em dia é bem mais difícil se deparar
com situações como a que se deparou quando era mais moço. No final das contas, o que mantém essa
criaturinha viva é a crença, tudo que nós
crê, nós alimenta. Mas não é impossível de ainda se encontrar! De vez em
quando ainda topo com um ou outro querendo vender um Familiá engarrafado, para
o desespero dos padres da região. Eu dou é risada. As pessoas têm o direito de
fazer o que quiserem com a vida delas; o tal do livre arbítrio também é deixar
os outros escolherem o seu destino de suas vidas póstumas, mas admito que
sempre que lembro dos nomes desses cabeça
de vento, faço uma oração.
Fiquei deveras
assustado, finalmente o assunto que me perseguiu por boa parte da vida estava
ficando claro para mim. De todas as teorias que pensei nesses anos, nenhuma se
compara com o que acabei de ouvir, tenho absoluta certeza que ainda pensarei
muito nisso mas, com uma bagagem de informação - que talvez me assuste mais que
a desinformação..
O senhor
continuou.
-Vô ti conta, não é fácil fazer um
Familiá e qualquer errin bobo bota
tudo a perder. Porém num é
impossível... O que mais posso lhe dizer... é um feitiço bem antigo, talvez mais
antigo que a própria Igreja! São Cipriano já o descrevia um eito de tempo atrás em seu Livro da Capa
Preta, há relatos disso pelos quatro cantos do mundo e falando nisso, cabra, tu nem devia ter vindo até o
interior de João Pessoa procurá essa
informação, vejo que tu é bem de vida, lá nas tuas bandas devia ter alguma bruxa véia,
meio trambiquêra que soubesse de
algo; mas já que suncê tá aqui, não o
farei perder a viagem. Tu deve estar
querendo saber como faz o diabinho engarrafado, então vamo lá que eu vou lhe explicar.
Na verdade, eu
nem pensava nisso, achava que provavelmente era um ser que habitava o mundo
concomitante conosco. Seguia a lógica de que se "conhecemos" os
oceanos, e ainda não conhecemos nem 10%, quem garante que a existência de
sereias é irreal?
-Tudo começa
com a escolha do lugar que será feito o feitiço: é comum das pessoas fazerem no
terreiro de casa, no próprio galinheiro ou pasto; uns dizem que o certo é fazer
em uma encruzilhada, terreiro de candomblé ou terrenos da Igreja, Eu como
feiticeiro véi que sou, sei que isso
não é tão necessário; ajudaria a fazer dar certo, é um bicho que se alimenta de
energia mágica, encruzilhadas, terreiros e áreas da Igreja são lugares muito
carregados de energia, seja ela positiva ou negativa. Porém, como encruzilhadas
são lugares que têm muita circulação de pessoas - logo, curiosos e nem todo
mundo tem à disposição uma Igreja ou terreiro, o mais comum é fazer no
galinheiro de casa mesmo. O mais importante é ser um lugar que não tenha
ninguém para fuçar e estragar tudo! É um processo muito delicado, demora para
ficar pronto e exige um lugar tranquilo e sem muita gente.
A curiosidade
ficou mais forte "e se, e se, e se" era só o que pensava; embora não
tivesse coragem de fazer esse ritual, imaginava "e se" fizesse. Com
certeza não seria em minha casa! Primeiro porque minha família não entenderia e
segundo porque está longe de ser sossegada.
-Escolhido o
lugar, chega a hora de escolher o período, os dias em que suncê fará o ritual. É bom que seja feito no início da quaresma, é
uma época muito sagrada para os religiosos, de resguardo e oração, a energia do
mal é alta e o Diabo adora que profanações como essas sejam feitas durante
períodos santos como este; como Jesus passou quarenta dias no deserto, os bons
espíritos se retiram para se prepararem para o grande marco da passagem de
Cristo para a vida eterna. É comum também que membros da Igreja e do terreiro
parem de comer carne, beber, ir à festas, praticar atos libidinosos para evitar
serem afetados pelo coiso ruim. Não é
proibido que seja feito em outros períodos, também pode funcionar, mas guarde
isso: é menos provável que dê certo.
Lembrei de
algumas pessoas que conheci na vida, comecei a ligar alguns pontos, como nunca
pensei nisso antes? O carnaval; o jejum dos muçulmanos…
-Tendo esses
preparativos feitos, separe uma galinha e galo pretos e bote eles separados das
outras galinhas dentro do galinheiro fechado. Traga também um bode preto, vivo,
e uma vela preta de 7 dias lá para dentro que está na hora de fazer o pacto.
Acenda a vela em um local alto, com
parador de vento, esse é o momento em que, de fato, venderá sua alma para O coisa ruim. Com uma faca virgem faça
um corte em seu dedo indicador e em voz alta, em claro e bom tom, sem espaço
para entrelinhas ou incertezas diga que está ali para oferecer sua alma a
Lúcifer, em troca de todo o dinheiro e bens materiais que puder ter nessa vida
e que caso um dia isso lhe falte o pacto será desfeito. Dito isso, corte a
garganta do bode e espalhe seu sangue pelo galinheiro. Com uma mistura do sangue do bode e o seu
que sai do seu dedo desenhe uma cruz invertida na parede do galinheiro bem
embaixo da vela preta. Esse é o momento em que, se o capeta lhe atendeu, você deverá
sentir um troço estranho... É bem
peculiar de cada um, uns sentem um pedaço da alma deixar o corpo, outros sentem
um vazio que só vivendo pra explicar. O importante é saber que suncê deverá o local e não voltar a
entrar ali enquanto não se completarem 7 dias! Lhe sugiro que vá direto para a
cama pois vai arder em febre por uns tempos - o velho deu uma risada maligna,
fiquei paralisado.
-No final dos
7 dias, quando a vela se apagar, volte ao galinheiro. É o momento de procurar o
ovo do cramulhão, um ovo de galinha que estará fecundado pelo próprio dêmo!
Cuide ao entrar, veja bem onde pisa, pois o ovo é pequeno, bem menor que um ovo
normal de galinha, mas com a mesma aparência. Há quem diga que esse é um ovo
botado por um galo e eu digo: besteira, cabra!
Isso não existe, é impossível um galo botar ovo e esta é uma informação muito
da mentirosa que vem dos anos de lenda passada no boca a boca. Ao achar, notará
que apesar de menor é muito mais pesado que um ovo caipira normal, sua
consistência interna aparenta ser mais viscosa: a gema e a clara não se mexerão
com tanta malemolência quanto os de
um ovo caipira normal.
A partir
daqui, fiquei com medo do meu "e se, e se, e se" se tornar realidade.
Seria incabível eu ter dedicado anos de fé e altruísmo fugindo desse bicho
fisicamente, mentalmente e espiritualmente para depois de eu velho, barbudo,
aposentado ficar tentado a corromper minha alma.
-Pegue o ovo
com cuidado, leve de preferência, a uma encruzilhada, donde tenha um monte fresco e quente de estrume; pode ser estrume
de boi ou cavalo, mas prefira os dos cavalos, são animais mais mágicos que os
bois. Aí cê me pergunta: por que o
estrume? Simples meu cabra, estrume é
um dos elementos com maior quantidade de energia mágica vital, ele é o
resultado de toda a comida que o bicho come, passa por todo o seu corpo e é
resultado de um processo que o mantém vivo. Tem muita energia acumulada e pela
décima vez: esses diabin se alimentam
de energia. Há versões do ritual que dizem que se deve botar o ovo debaixo do subaco esquerdo, faz sentido, diz os dotô que na asa esquerda passam uns
vasos que vem direto do coração, poucas coisas têm tanta energia mágica quanto'um coração humano batendo. Porém
não é conveniente, imagina como é ruim ter um ovo debaixo do braço por 40
dias; ele se quebraria mais cedo ou mais
tarde e levaria todo o processo por água abaixo! Outras versões dizem que se
deve matar um gato preto, enterrar seus dois olhos ali nas fezes, junto do ovo;
outra coisa que também faz sentido, gatos são os bichins espirituais e matar um para colocar seus olhos como
“comida” de dêmo, suncê deve imaginar
o tanto de energia que está acumulada ali.
Acho que nunca
tinha ouvido tantas teorias sobre fezes na vida, não que eu lembre muito das
aulas de biologia que frequentei durante o colegial. Sentia um fogo dentro de
mim, como se estivesse adormecido há muito tempo e tivesse despertado agora.
-Enfim, bote o
ovo no estrume quente e o deixe ali incubando por 30 à 40 dias. É interessante
que ocê busque uma encruzilhada que
num passe ninguém! Se algum curioso remexer a bosta em algum momento pode
quebrar o ovo e aí bau bau, tem que
começar tudo de novo. No final de 30 dias volte diariamente e com todo o
cuidado mexa no estrume para ver se o diabin
já nasceu. Quando ele nascer tu irá notar
o ovo quebrado e no meio do estrume, o encontrará.
Daí eu lhe
pergunto: qual será o nível de desespero pra fazer um indivíduo fazer revirar
dejetos a fim de ganhar "poder" em vida?
-No começo ele
parecerá mais com um lagartin de
parede do que com um diabin. Será uma
espécie de lagartixa preta, pegajosa, pequeninha, que se enrolará inteira em
seu dedo quando tocada. Pegue, leve para casa e coloque-o dentro de uma garrafa
vazia com arrolha e tudo. A partir daí, dê comida todos os sábados, furando teu
dedo com um alfinete virgem e pingando duas gotas dentro da garrafa. Deixe de
preferência em um lugar energizado da casa, que ninguém mexa; um altar véi que nem eu, de orações pessoal ou
capela são melhores. Alguns pedem pra benzerem a garrafa, evitando qualquer tripulia
do dêmo, mas isso é bobagem, não muda nada.
-Com o tempo,
tu irá notar que seu diabin irá cada vez mais parecer com um
humano pequenuxo, cada vez menos
parecido com um lagarto. Aos poucos ele passará a se mover com duas patas, o
rabo ficará maió com uma ponta em
forma de flecha, mãos e pés vão parecer de gente e chifres brotarão da cabeça.
O coiso que suncê viu quando era moço provavelmente estava nesse estágio.
O feiticeiro
já havia mudado seu olhar e seu tratar; antes mantinha uma certa distância,
agora já chegava perto de mim e dizia num tom de voz que era quase um sussurro,
como se estivesse falando algo proibido..
-Um dia cê pegará a garrafa e para sua surpresa,
só vai ter pequenos pedaços de carne preta se desmanchando, mas não fique afolosado! É sinal que seu dêmo virou adulto e poderá atender todos
os pedidos. Acontece que adulto ele toma o poder de ficar invisível, mas ele
ainda está ali dentro, pode acreditar. Você ainda poderá o ver, é verdade. Às
vezes, olhando de canto de olho, vai ver uma forma diabólica em miniatura
dentro da garrafa, mas se olhar de novo, não verá mais nada e ficará em dúvida
se realmente viu alguma coisa ou não; às vezes notará uma poeira girando dentro
da garrafa, que logo se acalma; às vezes conseguirá ver sua sombra se botar a
garrafa perto de uma fonte de luz, sem
nenhum corpo lá dentro que faça sombra. É importante dizer que a partir desse
ponto não se deve nunca mais voltar a abrir a garrafa! Não é mais necessário
alimentar e caso ignore e abra a garrafa com o coiso adulto, pode crê
que sua vida se transformará num inferno na terra.
No fundo eu
sabia que não era só maravilhas, mas essas últimas informações me deixaram
desanimado, eu juro que imaginava que seria uma criatura digamos que mais
"presente". E estou contando isso porque provavelmente, você imaginou
a mesma coisa que eu.
-Se tu seguiu os passos direitinho e conseguiu
chegar a esse ponto está pronto para pedir o que quiser. O diabin te atenderá em tudo. Também é possível fazer qualquer
pergunta sobre o passado, presente ou futuro e ele lhe responderá em sonho.
Terá uma vida de rei, regada por todos os luxos que puder imaginar. Lembre-se:
sua alma estará condenada a sofrer por toda a eternidade nas mãos do satanás, e
aí lhe pergunto, vale a pena?
Agradeci Pai
Bento, o paguei o que devia pela consulta e segui meu rumo. Por sorte, nunca
tentei fazer o ritual e nem recomendo que façam; felizmente, minha razão e
temor em Deus foram mais fortes que a minha curiosidade, naturalmente humana,
no desconhecido. Pude ao menos ter uma noção do que encontrei aquele dia em
minha juventude. Hoje sou um homem mais temente a Deus, não desejo nada de
ninguém e sigo minha vida normalmente. Ainda há algo que ainda frequentemente
me tira o sono: se esse diabinho da garrafa existe, penso nas outras
possibilidades de existências. Passei a refletir e temer mais o desconhecido.
Esse indecifrável mundo deve abrigar criaturas que não ousamos imaginar,
todavia, garanto que todo mundo tem uma história semelhante a minha, mas assim
como eu, guardam à sete chaves, porque a grande maioria dos habitantes,
humanos, desse planeta, não acreditam no sobrenatural por não ser algo
"racional". De fato racional não é, contudo é inegável e
inquestionável que o sobrenatural existe e convivemos com ele, quer você
acredite ou não.
Obs: Este conto foi editado, corrigido e melhorado pela sensacional Júlia Lunardi, valeu demais garota!
Obs: Este conto foi editado, corrigido e melhorado pela sensacional Júlia Lunardi, valeu demais garota!
Nenhum comentário:
Postar um comentário